2 de abr de 2015

Desabafos de Uma Lunática

Ela se olhava, encarava. Virava e tornava a olhar, avaliar. Ela irritava-se tão fortemente quando não tinha lugar algum para ir, ou se esconder. Toda e qualquer mágoa, qualquer indício de tristeza, indignação ou reclusão tinha de ser explicado, todos os seus dramas eram julgados como sérios ou não, e caso fosse dado como o segundo, lhe era mandado "parar de palhaçada", ou então "pára com isso, você tem um corpo lindo!", e era engraçado que aquilo viesse de sua mãe, normalmente, ou de grandes amigas e irmã. Aquilo nunca lhe pareceu sincero, porque quando ela olhava seu próprio reflexo no espelho, ela sentia um soco no estômago, sentia os olhos arderem e sua visão embaçar. Ela só queria ser bonita, ser como queria ser, ser como as meninas que admirava. Porém, tudo parecia tão distante de sua situação atual...
Era, inclusive, de dar pena, o jeito como ela tentava ser como as "it-girls" que seguia, que impunha à ela mesma como objetivo: "Eu quero ter esse corpo"; "Eu quero meu cabelo grande assim". Era de dar pena, porque uma barreira muito grande estendia-se entre ela e as meninas bonitinhas das redes: o dinheiro e a fama. Um leva ao outro, e o dinheiro facilita muito a boa aparência. Que riquinho você já conheceu feio? Feio até pode ser, mas mal-tratado, mal-cuidado, jamais! A conta bancária dá brilho aos cabelos, clareia os dentes, veste bem e torna-os fotogênicos como ninguém! Ela só queria viajar para os lugares que sempre sonhou, queria ter boas histórias para contar e ótimas fotos para guardar, embora tudo aquilo parecesse tão fora de sua realidade!
Então, a cada foto que ela queria ter igual, abria uma pequena barra de chocolate e desistia de ir à academia naquela noite, porque parecia que aquilo era em Tão Tão Distante. E só lhe restava ter raiva, duvidar do mundo! Por que umas pessoas eram tão privilegiadas? Por que ela tinha que lidar todos os dias com o desafio que seu cabelo era, com o quebrar de cabeça para achar uma roupa decente, ou com o suor que escorria por seu rosto todos os dias enquanto ela esperava um longo tempo até seu ônibus chegar?
Ela não entendia. Queria ter o mundo fácil e bonito daquelas meninas, e esquecia de ver o que tinha ali, no seu.

Um comentário:

  1. Poxa que texto legal! Gostei mesmo...
    Quem nunca passou/sentiu isso, atire a primeira pedra.

    conversandocomlorena.blogspot.com

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Atualizado com por Giulia Christie